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Sem postas de bacalhau nem conversas de café
Postas de Bacalhau: coisa que, quando atirada na sua metaforicidade conhecida, causa desconforto a quem sobre o assunto não as atira.
Falo claro da enorme comunidade de opiniões portuguesas, que em cerca de 80% se resume a um lombo de peixe, a uma carneirada ou uma conversa de café. E é de tão portuguesa a expressão que nem os nossos companheiros brasileiros, do outro lado do oceano, a usam. Pressuponho, portanto, que lá atirem postas de picanha.
E que mal tem dar o empreiteiro a sua opinião ao engenheiro, ou o enfermeiro ao médico? Exceto que por terras lusitanas nada mais acontece que o empreiteiro a dar a sua forte opinião médica: “O quê?! SIDA?! Tomas uma sopa de cavalo cansado e isso passa-te”. O clássico caso do homem que, no café, discute entre amigos de rés a lés todos os temas de cultura geral sem qualquer desconhecimento. E quando alguém tem um problema de amores, quem melhor a consultar que as vizinhas, que das novelas tiram as maiores ilações sobre a vida amorosa e os rituais de acasalamento da espécie humana?
Sábios bacalhaus são atirados todos os dias, e não sei se é da ânsia ou da vaidade, mas desde o 25 de abril que ninguém se cala. Todos temos dedo em tudo e ninguém é mais que o outro, e opiniões são opiniões. Também factos são factos, e são facilmente confundidos com opiniões, e como dizem “gostos não se discutem”. Eu discordo e corrijo “factos não se discutem”, porque o que é um gosto senão uma opinião, e porque não discutir gostos quando neles se baseiam a nossa vida?
Não me levem a mal, todos temos direito à nossa opinião, talvez por isso se ponha a questão até que ponto a devemos dar, e com que legitimidade? A verdade é que as opiniões são ilimitadas, mas é também verdade que as devemos dar sempre que entendermos, e que jamais uma opinião é demais. A única oposição à nossa opinião é a figura que fazemos a dá-la, e pior que uma opinião que os outros acham errada é uma opinião infundada. E por fim, pior que uma opinião infundada é mesmo uma opinião infundada sobre factos, e por isso é que o meu lema de vida é: “antes calado e acharem que és estúpido, que abrires a boca e ficarem com essa certeza”.
Pesquisem, informem-se e estudem porque a liberdade de expressão não é dada para dizermos o que queremos mas sim para podermos ouvir, aprender e evoluir individualmente, não só através do diálogo mas através de todo o mundo exterior, porque uma visão não é única, abram a mente, e atirar postas de bacalhau é saudável, mas quando vos atirarem uma desviem-se.
Há um compromisso que temos para com os nossos leitores: o de garantir que a informação disponibilizada no Criticamente Falando é de qualidade e que todos os factos são verificados antes de um artigo ser publicado, e isto é o que nos distingue de um blogue de opinião.
Apesar de já termos cometido esse erro numa fase inicial, estamos a esforçar-nos ao máximo para garantir aos nossos leitores uma nova linha editorial que não tolera a fraca argumentação nem o meio jornalismo.

